Comecei a escalar em 1973, antes de existirem academias e instruções formais sobre a escalada; uma década inteira antes da escalada esportiva ser uma modalidade. Meus parceiros de escalada e eu liamos livros, compartilhávamos informações e testávamos tudo nas pedras de calcário do Tennessee. Nós subíamos, levávamos quedas e segurávamos as quedas.

Alguém poderia pensar que essa era uma maneira perigosa de aprender, que os riscos eram inadequados e que ferimentos ou morte eram iminentes. No entanto, nós sobrevivemos sem prejuízos e até mesmo evoluímos com sucesso. Por quê? O livro de Tim Harford, Messy, pode nos dar algumas dicas.

Tim relata uma história sobre parquinhos infantis (playgrounds). Ele diz: “Carl Theodor Sørensen, um arquiteto de paisagem, projetava parquinhos na Dinamarca na década de 1930. Ele tinha um problema: ele notou que, embora os adultos que comissionavam e pagavam pelos playgrounds estivessem perfeitamente satisfeitos, as crianças locais não pareciam gostar muito deles. Rapidamente se cansando dos balanços e escorregadores, elas estariam infinitamente tentadas a fugir e entrar em locais de construção do bairro. ”

Tim mostra que as escolas e municípios instalam playgrounds padronizados – estruturas estéreis pré-fabricadas com superfícies de borracha – na esperança de minimizar ferimentos e processos legais que possam vir a ocorrer. Mas não está claro se esses playgrounds têm menos índices de acidentes. Uma equipe de quinze acadêmicos fez uma revisão de todos os dados que puderam encontrar em jogos arriscados ao ar livre. As categorias incluíram: grandes alturas; altas velocidades; ferramentas perigosas, como facas e machados; elementos perigosos, como fogo e água; jogos brutos como lutas; e risco de se perder. Eles descobriram que as crianças se ajustam ao risco: se o chão é mais duro, o equipamento de jogo afiado ou pontiagudo, os espaços e estruturas irregulares, elas serão mais cuidadosas. Além disso, esse tipo de brincadeira oferecia benefícios: mais exercícios, melhores habilidades sociais, redução da agressividade e redução de lesões. Alguns especialistas argumentam que playgrounds padronizados encorajam as crianças a serem descuidadas e aumentam a probabilidade de acidentes em outros ambientes.

O que acontece quando nos colocamos em situações estruturadas, em vez de situações “bagunçadas”, sem padrões? Os playgrounds padronizados têm equipamentos, como balanços, barras de macaco e escorregadores, que só podem ser usados ​​de uma maneira. O chão é coberto com camadas de material emborrachado para proporcionar aterrissagens suaves. As crianças têm pouca necessidade de pensar de forma criativa sobre como usar o equipamento, ou de prestar atenção às consequências do que estão fazendo.

As coisas que as crianças aprendem com essas brincadeiras estruturadas têm efeitos duradouros sobre como elas vivem suas vidas. Lidar com o inevitável risco e estresse no trabalho, nos relacionamentos e nos filhos é confuso. Parques infantis padronizados ensinam às crianças lições erradas, que limitam sua capacidade de viver na desordem que inevitavelmente enfrentarão ao longo da vida.

Playgrounds bagunçados, pelo contrário, exigem que as crianças inventem instrumentos para brincar. Se eles estão em uma floresta, então as árvores se tornam instrumentos para escaladas e balanços. Onde eles colocam suas mãos e pés não é predeterminado por degraus bem espaçados, como em barras de macaco. O risco de escalada e consequência de queda está sempre presente. Algumas partes do terreno são duras e planas; outras áreas são suaves, cobertas de folhas. As crianças prestam mais atenção e são favoráveis ​​apenas ao risco. Aprender em situações de jogo confusas dá um bom repertório para lidar com situações confusas na vida.

As academias de escalada enfrentam um dilema semelhante ao decidir como projetar e operar suas academias para criar “playgrounds” que reduzem a chance de acidentes e diminuem a responsabilidade por eles. Vamos usar a prática de queda para avaliar esse dilema. A abordagem padronizada vê a queda como perigosa, de modo que os ginásios não permitem a prática de queda intencional pelos membros. Algumas academias vêm a queda como fator importante e exigem que os membros levem uma queda durante o teste de guiada. Estas parecem abordagens lógicas para criar um ambiente seguro, mas elas têm o efeito oposto. Evitar a queda ou forçar os escaladores a cair durante o teste de guiada pode causar ferimentos, porque os asseguradores não sabem como segurar a queda. Os escaladores também tendem a enraizar os medos porque eles não terem levado quedas gradativamente. A maioria dos membros acabam se sentindo impotente, com medo e frustrada, vivendo suas vidas como vítimas permanecendo nas zonas de conforto restringidas pelas academias.

Então, o que devemos fazer, como escaladores ou operadores de academia? Nós entendemos o paradoxo da segurança. Queremos alcançar a meta de segurança – reduzir os acidentes e diminuir a responsabilidade -, mas conseguimos isso indiretamente. Conseguimos segurança tornando-nos inseguros. Especificamente, desenvolvemos sistemas que focam no que podemos controlar: o processo de aprendizagem. A aprendizagem torna-se nosso principal motivador à medida que desenvolvemos sistemas para engajar o estresse de maneiras incrementais. Essa abordagem incremental nos permite aprender as habilidades de fazer a segurança, escalar e cair, introduzindo um pouco de estresse e trabalhando conscientemente. Fazer isso desenvolve confiança e competência. Mais profundamente, isso nos dá poder. Em vez de nos sentirmos vítimas sem poder, sabemos como investigar o desconhecido e assumir riscos apropriados.

A escalada está crescendo como esporte e as academias de escalada são o principal ponto de entrada para novos escaladores. As pessoas vão às academias para fazer um exercício físico mais divertido e interessante do que simplesmente levantar pesos. No entanto, este é apenas um ponto de partida para o tipo de experiência que as academias querem que os membros tenham. O que as pessoas realmente querem é viver vidas significativas. A escalada e as academias são únicas para fornecer isso. A sensação de significância vem do sentimento de poder através da tomada de risco. A principal tarefa das academias de escalada é ajudar a orientar o processo de tomada de riscos, para que os escaladores possam realinhar sua motivação e assumir riscos apropriados. A equipe monitora como seus membros são motivados. Se eles vêm os membros indo muito além de suas zonas de conforto ou base de experiência – assumindo muito risco -, então os puxam de volta para riscos que são apropriados e permitem o aprendizado. Encontrar maneiras de criar a quantidade adequada de “bagunça” em academias – em oposição a uma abordagem mais padronizada – pode reduzir os acidentes e diminuir a responsabilidade.

A grande recompensa para as academias, no entanto, é que os escaladores aprendem a realinhar sua motivação, lidar com seus medos e passar eles mesmos pelos processos necessários através da experiência aleatória da tomada de risco. Eles se sentem empoderados e podem extrair significado de suas experiências na academia que se encaixam bem em suas vidas. Os membros querem fazer parte de tais academias, porque elas lhes dão algo mais importante do que um treino físico. Elas lhes dão os meios para viver vidas significativas.

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