branch-1290017_1280Bob Johnson escala regularmente em Shawangunks (Gunks), uma área de escalada tradicional em Nova Iorque. Ele passou evoluindo pelos graus mais fáceis, escalando vias de Io, IIo, IIIo e melhorou rapidamente. Então, Bob decidiu escalar IVo grau, que demandava mais força física e mental. Ele já estava sendo desafiado de alguma forma nas vias de IIIo. Pensar em escalar IVo embrulhava-lhe o estômago, e deixava sua mente ansiosa. Ele queria que as vias acabassem logo para chegar no topo delas.

Ele escalou várias vias de IVo nesse estado de estresse, as achou desafiadoras, mas se saiu bem. Então ele escolheu a via Birdland, considerada uma das mais difíceis do grau. Quando ele chegou na base, havia outra dupla de escalada nela. Então, ele decidiu escalar um IIIo que havia por perto. Após terminar a via, ele decidiu não voltar à Birdland, mesmo não havendo ninguém nela, e escalar mais vias de IIIo grau.

Um dia Bob decidiu voltar à Birdland. Ele começou a escalá-la e logo teve dificuldade. Identificou seu próximo ponto de descanso, que era três metros acima. Escalar até lá parecia difícil, então ele procurou uma alternativa mais fácil. Viu agarras maiores indo para a direita, as usou, mas chegou num ponto sem saída. Ele escalou de volta pela esquerda e se posicionou abaixo da parte difícil. O que Bob realmente  queria era descer.

Ele tomou decisões sobre quais vias escalar com base na dificuldade. Quando ele pensava em escalar vias de Io grau, ele se perguntava “Eu consigo fazê-la ou não?” Já que esse grau é muito fácil, até mesmo para iniciantes, ele respondia “sim”. Então, ele escalava vias desse grau. Ele aplicava o mesmo processo de tomada de decisão para as vias de IIo, e IIIo. Quando a dificuldade aumentou para IVo, ele não conseguia mais responder “sim” à sua pergunta.

Perguntar “Eu consigo fazê-lo ou não?” foca no resultado final e no desejo do ego de atingi-lo. Isto motiva a mente na direção do logro futuro, buscando o conforto que iremos experimentar quando a meta for alcançada.

Atingir graus mais altos, é claro, requer trabalho. O desejo do ego por conquistas faz com que fiquemos presos em uma armadilha motivacional, divididos entre o desejo de atingir e a resistência de fazer o trabalho. Acabamos não sendo capazes de satisfazer nenhuma motivação, o que deixa o corpo preso e a mente ansiosa.

Nós nos limitamos a escalar vias dentro de nossa zona de conforto quando estamos presos nessa armadilha motivacional, ou então, escalamos vias desafiadoras procurando fugir do trabalho que ela requer. Foi isso que aconteceu inicialmente com Bob. Ele evitou Birdland, escalando vias de IIIo no lugar dela. Quando ele finalmente entrou na via, ele buscou fugir do estresse seguindo uma linha de agarras maiores à direita, que o levou para um ponto sem saída.

A pergunta “Eu consigo fazê-lo ou não?” não é a ideal para se fazer quando se encara algo desafiador. Se a via é desafiadora, ela estará fora da nossa zona de conforto. Portanto, obviamente, não podemos responder “sim” à pergunta. Nós só sabemos se conseguimos escalar uma via que está dentro da realidade que já experimentamos, na nossa zona de conforto. Esta pergunta nos leva a um pensamento de tudo ou nada. Se decidimos que não podemos fazer ‘tudo’, não fazemos ‘nada’.

É importante incrementar lentamente a escalada para desenvolver nossas habilidades. Começar com graus mais fáceis diminui a possibilidade de queda, reduz o estresse, e nos permite aprender habilidades básicas em uma situação mais confortável. Os graus mais fáceis no Gunks são zonas de não-queda. Elas são de inclinação positiva e têm obstáculos como platôs. Mas, conforme a dificuldade aumenta, a verticalidade também aumenta, diminuindo os obstáculos.

A falha que a maioria dos escaladores comete é continuar a empurrar-se em graus mais difíceis sem obter experiência com queda. É importante estar em zonas de sim-queda quando estamos indo além de nossos limites. Familiarizar-se com quedas nos ajuda a responder a elas quando elas ocorrerem.

O caminho do guerreiro define as zonas de sim-queda como as zonas que têm quedas similares às que já tivemos experiência. Portanto, todas as vias são zona de não-queda se não temos experiência com elas. Portanto, conforme nos empurramos para escaladas mais desafiadoras, sem experiência com quedas, estamos escalando em zonas de não-queda, em nosso limite, e tomando riscos inapropriados.

Bob sabia que ele precisava obter experiência com queda para diminuir sua ansiedade ao escalar IVo grau, então ele se inscreveu em uma clínica de escalada Tradicional do Caminho do Guerreiro em New River Gorge. Ele aprendeu como cair e desenvolveu sua confiança para confiar no equipamento de proteção móvel. Ele também aprendeu a importância de mudar sua motivação para encontrar pequenas formas de se envolver nos desafios.

As decisões sobre quais vias escalar devem ser feitas de maneira diferente, uma vez que as habilidades básicas e as quedas forem aprendidas. Nos perguntamos: “qual é a consequência da queda?” e não “eu consigo fazê-lo ou não?”. A primeira pergunta é uma que podemos responder se tivermos experiência com quedas.

Em vez de permitir que a mente pensa em formas de tudo ou nada, focamos em comprometer-nos com pequenos passos. É mais fácil dar um pequeno passo, o que foca nossa atenção em realizar o trabalho. Nós fugimos da armadilha motivacional ao mudar o nosso foco.

Vamos voltar para Bob em Birdland. Ele estava posicionado abaixo da escalada difícil e tinha que fazer uma escolha. Ele não queria desistir, então ele se forçou a continuar. Ele se perguntou “o que mais eu consigo fazer aqui?”. Ele identificou rapidamente algumas agarras de pé alto e as usou combinando-as com algumas agarras de mãos menores e facilmente chegou até a próxima parada. Depois ele continuou escalando. Sempre que ele sentia o impulso de desistir, ele continuava se perguntando “o que eu posso fazer aqui?”.  E, quando ele percebeu, ele já havia feito tudo que precisava fazer, e estava no final da cordada.

Nós fugimos da armadilha motivacional quando obtemos experiência com queda e tomamos decisões com base nas consequências da queda. Sem o corpo travado e a mente ansiosa, nós relaxamos e conseguimos fazer o trabalho. Entendemos que estar no estresse, trabalhando através dele, é o motivo pelo qual encaramos o desafio. É realizando o trabalho que crescemos como escaladores.

Não precisamos ser vítimas da armadilha motivacional do ego. Em vez disso, podemos focar nossa atenção em dar pequenos passos no estresse, relaxando nele, e aproveitar todo o processo. Podemos nos perguntar “o que eu consigo fazer aqui?”, como Bob o fez. Realizar essa mudança faz com que abordemos os desafios de maneira diferente. Com prática, não precisamos nos forçar ao compromisso; o fazemos intencionalmente, focando nossa atenção em pequenas ações que nos movem através do desafio. Não estamos motivados apenas pela conquista, com a expectativa de falhar; estamos motivados principalmente em aproveitar o desafio, com a expectativa de cair. A queda e o trabalho se tornam parte importante de nossas jornadas na escalada.

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